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Artigo sobre Redes Locais
Publicado em 6/8/2009

Procedimentos errados no cabeamento de rede com par trançado


Os cabinhos azuis usados nas redes locais estão por todo lado, e hoje em dia qualquer garoto sabe montar um cabo destes, certo? Errado. Apesar de sua aparente simplicidade, estes cabos são produto de muita tecnologia e de décadas de aperfeiçoamento para atingir altas taxas de transmissão. Com a banalização deste componente tão importante surgiram também alguns erros típicos que podem prejudicar a confiabilidade e durabilidade dos cabos e conectores. Estudemos este assunto:

Os cabos de rede local mais comuns hoje em dia são aqueles chamados de “par trançado não blindado”, geralmente na cor azul ou cinza claro. Eles costumam ser chamados por sua abreviação em inglês, “UTP”, termo que é uma abreviação de “Unshielded Twisted Pair”. Este tipo de cabo, mostrado na figura à esquerda, é um dos fatores que possibilitaram a simplificação do processo de implantar uma infra-estrutura de rede local de computadores.

Devido à sua natureza de interligar ponto a ponto, o cabo UTP facilitou não apenas a instalação mas também a manutenção das redes. Com ele ficou fácil diagnosticar problemas referentes ao cabeamento pois é possível isolar cada um dos segmento das redes, já que cada um deles conecta uma estação da rede a um equipamento ativo (switch ou roteador). Basta ir testando segmento por segmento até achar o “culpado”. Além disso, se um determinado computador não está conseguindo se conectar a rede por causa do cabeamento, o problema fica restrito aquele segmento de cabo que o interliga a um outro dispositivo ativo.

O cabo UTP é de fácil conectorização e baixo custo de aquisição, se comparado às outras opções como os cabos blindados e a fibra ótica. Em relação às redes wireless, tão comuns atualmente, o cabo de par trançado oferece mais estabilidade e velocidades muito maiores (até 10 Gbps).

Porém, a aparente simplicidade dos cabos UTP esconde a necessidade de que tenhamos cuidados básicos na sua implantação. O que mostraremos aqui são os erros e enganos mais comuns cometidos na instalação de cabos UTP e o que isso pode acarretar.

Erro nº 1 — Fio rígido versus flexível

Os fios que constituem um cabo par trançado podem ser do tipo rígido ou do tipo retorcido. O tipo retorcido, também chamado de flexível, é formado pelo entrelaçamento de vários fios bem finos. Enquanto isso, tipo rígido é constituído de um único fio. Outra característica que diferencia os dois tipos é que o rígido é mais sensível a deformações mecânicas.

Um teste simples que podemos fazer para verificar a diferença de flexibilidade é pegarmos um cabo par trançado com fios rígidos e forçarmos uma curvatura nele com a própria mão. O cabo irá manter a curvatura mesmo após pararmos de forçá-lo (figura ao lado). O mesmo irá acontecer se o cabo for esmagado, esticado ou pressionado.

Certo, mas o que tem de errado nisso? Como a maioria dos cabos UTP possui fios do tipo rígido devemos tomar alguns cuidados quando fizermos o seu lançamento nas estruturas de passagem. Além disso, muitos instaladores, por economia, compram os fios mais baratos que encontram e estes geralmente são ainda mais rígidos e de material vagabundo, o que aumenta mais ainda as chances de ocorrerem problemas.

Erro nº 2 — Cabo esmagado

É muito comum vermos cabos sendo esmagados por terem sido instalados sem uma estrutura de passagem adequada. Na figura ao lado vemos um cabo sendo pressionado pela esquadria de uma janela de vidro. Neste caso, a falta de planejamento de uma passagem de cabo de um andar para o outro gerou este problema.

A solução foi passar o cabo pela janela. Como a sala tem ar condicionado, a janela tem que permanecer fechada, por isso o cabo permanece sempre pressionado. Este procedimento faz com que, neste ponto, o cabo sofra alterações nas suas características físicas (deformação mecânica) e elétricas (problemas de diferença de impedância). Isto causará um aumento de problemas como perda de retorno (“return loss”) e atenuação (perda de inserção). O adequado nestes casos é planejar e providenciar uma estrutura de passagem entre os andares.

Erro nº 3 — Cabo passando numa área de circulação

O computador mudou de lugar e logo alguém tem aquela bela idéia de passar o cabo cruzando a área de circulação de pessoas. Na figura à esquerda temos um caso típico. Para “organizar” o cabeamento é usada fita crepe. Perceba que ao lado outro cabo passa sem ter o mesmo “cuidado”. Este erro tem dois problemas bem fáceis de perceber. Primeiro o cabo vai ser constantemente pisoteado, e além disso as pessoas que circulam nesta área correm o risco de tropeçar no cabo e cair, mesmo com a “providencial” fita crepe.

O que conduz a esta prática errada é a falta de planejamento de pontos de rede que atendam toda a área de trabalho. É comum, por exemplo, termos pontos somente em uma das paredes de uma sala. Um belo dia alguém resolve mudar o layout da sala, com isso os computadores agora estão próximos das paredes que não tem pontos. Desta forma faz-se cabos maiores e esses são passados pelo chão para atender estes computadores. Vale aqui o mesmo que foi dito sobre cabo esmagado: as características físicas e elétricas do cabo serão afetados e o sinal de rede que é transportado pelo cabo sofrerá mais interferências.

Erro nº 4 — Cabo passando sem proteção em área externa

Este problema muitas vezes está associado ao problema de cabo esmagado pela esquadria da janela. Os incautos passam cabos pelo lado externo da edificação sem nenhuma proteção contra a ação da chuva e do sol. A princípio não existe problema em passar um cabo pelo lado externo da edificação, desde que haja uma estrutura de passagem adequada. Porém, o que vemos são cabos passados de qualquer jeito e sem nenhuma proteção. . O que vai acontecer com estes cabos é um ressecamento prematuro da capa pela ação do tempo.

Se precisarmos passar um cabo pelo lado externo o correto é fazer uma estrutura de passagem que providencie uma saída organizada dos cabos e um caminho até a sua entrada novamente na edificação. No exemplo da figura ao lado vemos que os cabos saem pelas frestas da janela e seguem sem proteção pelo lado de fora do prédio. Novamente o que motiva este erro de instalação é a falta de planejamento de passagem de cabos entre andares ou até mesmo entre salas de uma edificação.

Erro nº 5 — A questão da vaselina, detergente, talco...

Este problema também está ligado à questão do esticamento e da falta de planejamento. Como a maioria das edificações foi feita sem pensar nos cabos de rede, estes precisam passar por qualquer eletroduto ou buraquinho disponível. Freqüentemente passam junto com a fiação de telefone ou antena de TV ou até, infelizmente, junto da própria fiação elétrica.

O simples fato do cabo de rede passar junto com estes outros dispositivos não significa necessariamente um problema, pois a própria construção do cabo e o arranjo elétrico dos sinais foi todo projetado justamente para diminuir a interferência que possa ser gerada pelos campos eletromagnéticos que são gerados por diversos dispositivos e cabeamentos. O grande problema de aproveitar estas passagens para o cabeamento de rede é que existem curvas e eletrodutos inadequados para ele, até porque os eletrodutos já devem estar lotados e o cabo de rede tem que passar “espremido” no meio dos outros.

Isto leva o instalador a colocar bastante força para conseguir passar o cabo de rede, o que pode danificar sua estrutura mecânica. Isto causa perda de sinal e pode deixar a rede com funcionamento intermitente, devido a algum componente interno danificado.

Alguns instaladores passam vaselina ou detergente para diminuir a força necessária para puxar os cabos de rede pelos eletrodutos, mas esta prática é bastante discutível. A vaselina e o detergente são componentes químicos que podem reagir com o isolamento do cabo, novamente diminuindo sua eficiência e durabilidade. O ideal seria passar algum componente neutro como, por exemplo, grafite em pó ou produtos adequados para condutores elétricos.

Erro nº 6 — Cabo muito esticado

Um erro comum encontrado nas instalações de cabeamento é achar que cabo “organizado é cabo esticado”. O esticamento acima de certo limite gera deformações mecânicas que causam problemas para a passagem do sinal de rede. Um cabo esticado sofrerá deformações pois será pressionado contra quinas e curvas das estruturas de passagem. Além disto cabos esticados na área de trabalho vão forçar as conectorizações e acabam gerando problemas de mau contato elétrico. Na figura a direita vemos um exemplo de cabeamento bem feito. O cabo não está esticado e está bem organizado na caixa de passagem.

Erro nº 7 — A questão da “sobra técnica”

Outro equívoco cometido em algumas instalações é apelidado de “sobra técnica”. O que é isso? Com receio de que o cabo não alcance a estação após uma mudança de lay-out, o instalador deixa uma sobra de cabo. Na figura ao lado vemos um exemplo deste problema. O que motiva a deixar este resto de cabo é, novamente, o velho problema da falta de um projeto de infra-estrutura de cabeamento. O correto é projetar e instalar diversos pontos de rede na área de trabalho. Caso um computador precise mudar de posição ele será atendido por outro ponto de rede.

Ao invés de deixar os cabos pendurados, o certo é utilizar um conector adequado em cada tomada de parede, e ligar o computador a este conector usando um “Patch Cord”. Este é um cabo de rede que usa o mesmo tipo de par trançado, só que é feito de materiais especiais que o tornam bem flexível e maleável e muito menos sujeito a se danificar.

Em suma...

O objetivo deste artigo não é criticar o trabalho de nenhum instalador de cabeamento. Sabemos que muitos destes problemas surgem da correria do cotidiano e da necessidade de sanar falhas de projeto, mas precisamos saber as implicações que estes procedimentos podem gerar. E precisamos também cada vez mais buscarmos nos qualificar para melhor prestarmos nossos serviços.

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  Comentários dos Leitores
Cabos UTP (por luizvaz, em 12/8/2009)
Muito bom artigo, chegou em boa hora para relembrar algumas coisas básicas sobre a passagem de cabos.
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